
Durante o Pleistocénico Médio em Portugal o quartzito é a matéria‑prima dominante nos conjuntos artefactuais. Discutimos a utilização desta matéria‑prima dando como exemplo o estudo tecnológico da indústria lítica do sítio da Ribeira da Ponte da Pedra, localizada no médio vale do Tejo em território português e com datações absolutas entre os 300 000 e 175 000 anos. A indústria lítica foi produzida a partir da exploração de seixos rolados locais, maioritariamente de quartzito de boa qualidade, e é caracterizada por duas cadeias operatórias principais que resultam em abundantes seixos talhados, seixos retocados, lascas corticais e semi‑corticais, poucos núcleos e raros artefactos bifaciais. Muitos artefactos apresentam modificações das margens, irregulares e variáveis, que descrevemos como retoque «informal», cuja origem pode ser atribuída à sua utilização.
Parte substancial da primeira investigação sistemática alguma vez realizada no Nordeste alentejano, ao qual se deu o nome de Pré‑história antiga no Nordeste alentejano (PHANA) realizou‑se nas Portas de Rodão, no complexo do Arneiro, concelho de Nisa. Aqui, numa área de 3 x 3 km, perto da aldeia de Monte do Arneiro, foram localizados quinze sítios de cronologia pré‑histórica. Entre estes sítios foram intervencionados três ocupações datadas do Paleolítico Médio: Pegos do Tejo 2, Azinhal e Tapada do Montinho. A adscrição cronológica assentou em características tecno‑tipológicas e datações por OSL. A escavação realizada nos Pegos do Tejo 2, além de apresentar uma colecção lítica com alguma importância (548 peças), revelou estruturas que indiciarão a existência de uma zona residencial. A escavação que abarcou uma área de cerca de 8 m², pôs a descoberto parte de um empedrado, uma lareira e algumas anomalias que poderão corresponder a buracos de postes.
O sítio de ar livre da Lagoa do Bando localiza‑se em depósitos lacustro‑fluviais a 570m de altitude na Formação do Bando dos Santos correspondente a um complexo quartzítico. As matérias‑primas utilizadas, porém, não são provenientes destas formações correspondendo a quartzitos de boa qualidade cuja proveniência é ainda desconhecida (alguns apresentam cortéx rolado de provável origem fluvial), quartzo e sílex de origem exógena (provável proveniência do maciço calcário estremenho).
As matérias‑primas foram exploradas seguindo três cadeias‑operatórias principais: discóide, levallois (recorrente e preferencial) e expedito oportunista. Sendo que as primeiras fases destas cadeias operatórias não se encontram representadas, encontrando‑se os núcleos em avançado estado de exploração. Os suportes retocados são minoritários.
A Gruta da Oliveira é uma jazida do Paleolítico Médio descoberta em 1989 no quadro da exploração espeleoarqueológica do sistema cársico da nascente do rio Almonda. Uma vez desobstruído o espesso abatimento brechificado que selava a respectiva entrada, puderam escavar-se, entre 1992 e 2012, os ~9 m de estratificação arqueológica subjacente. Além de uma indústria lítica em sílex, quartzo e quartzito totalizando mais de 25.000 objectos, de restos do Homem de Neandertal, e de estruturas de combustão, os depósitos também forneceram abundantes restos de microfauna, fauna e carvão de madeira. Datada do intervalo ~35‑105 ka por Radiocarbono, Urânio‑Tório e Termoluminescência, esta sucessão é uma referência para o estudo paleoambiental e paleoantropológico do Plistocénico Superior da Península Ibérica.
Os dados disponíveis até à viragem de século sobre a ocupação Solutrense em Portugal eram sobretudo provenientes dos sítios localizados na Estremadura portuguesa e no Vale do Côa. Recentemente, contudo, a identificação de contextos fora destes âmbitos geográficos, nomeadamente no Algarve, e a consequente atualização da base de dados radiométrica solutrense, tem permitido lançar novos desafios à tradicional organização crono‑estratigráfica do tecnocomplexo.
O faseamento interno do Magdalenense português foi inicialmente definido de acordo com os tipos de armaduras e as modalidades de produção de suportes lamelares. A escavação de novos sítios e o desenvolvimento de novas metodologias de análise das indústrias líticas possibilitaram uma revisão da sequência magdalenense da Estremadura e a sua comparação com dados provenientes de outras regiões (Vale do Côa e Bacia do Guadiana). Esse trabalho de revisão dos dados existentes permitiu identificar um aumento progressivo da utilização de núcleos sobre lasca (tipo buril ou raspadeira) para a produção de suportes lamelares. Foi também possível constatar que as diferenças tipológicas existentes entre as armaduras devem‑se, sobretudo, a diferenças nas modalidades de transformação dos suportes (retoque). A variabilidade regional identificada deve ser explicada por uma adaptação das populações a contextos geológicos com recurso a matérias‑primas líticas diferentes mas este facto não impediu a persistência de opções técnicas comuns durante uma longa diacronia no território actualmente português.
Apresenta‑se uma primeira abordagem à macro‑escala sobre a transição dos últimos grupos de caçadores‑recolectores holocénicos para os primeiros grupos produtores de alimentos, através da comparação de dados arqueológicos provenientes de sítios de tipo concheiro em dois territórios distintos – Portugal e Japão. Embora constituam casos de estudo diferenciados no tempo e no espaço, quer em Portugal, quer no Arquipélago Japonês, são conhecidos numerosos concheiros a partir do Holocénico, sendo o seu papel determinante no estudo das comunidades humanas pré‑históricas,nomeadamente no conhecimento sobre os últimos caçadores‑recolectores e os processos económico‑sociais inerentes à emergência de grupos produtores de alimentos.
O auroque, veado e javali tornaram‑se
mais pequenos há c. 12.000 anos – uma mudança associada ao aumento da temperatura. Surpreendente é o retomar posterior de parte do tamanho original. Com o javali em Itália e auroque no Médio Oriente acontece o mesmo. A diminuição de tamanho do Plistocénico para o Mesolítico foi, provavelmente, “provocada” pela combinação do aumento de temperatura e caça excessiva. Este último, representa outro sinal de stress no Mesolítico, aliviado a seguir ao Neolítico com a introdução dos animais domésticos. Outros sinais incluem uma mudança para mamíferos de reprodução rápida, menor porte e aumento do consumo de moluscos. No Médio Oriente ocorreram eventos similares como o aumento da exploração de pequenos mamíferos, gazelas juvenis, peixes e aves. Estas especulações ajudam a compreender porque era necessário domesticar plantas e animais no Neolítico.
Tradicionalmente parte integrante do debate da neolitização da fachada atlântica portuguesa, as paisagens litorais alentejanas têm visto o seu papel, outrora preponderante, sido relegado para um segundo plano. O estudo de materiais arqueológicos inéditos e a realização de prospecções no âmbito do projecto de investigação “O povoamento Mesolítico e Neolítico antigo no vale do Mira, no seu contexto regional” permitiram acrescentar ao debate novos espaços vividos e visualizar novos aspectos sobre a ocupação no início do Holocénico, numa paisagem múltiplas vezes revisitada.
Apesar da revolução empírica que reconstruiu nas últimas décadas, em Portugal, o registo arqueológico disponível para a análise das sociedades da Pré-história recente, a base de dados relativa às primeiras fases da neolitização foi pouco ampliada e a continuada ausência, ou efectiva escassez, de matéria orgânica nos sítios recentemente identificados torna difícil a reconstituição das primeiras práticas produtivas a partir de indicadores directos. Algumas estruturas domésticas conectadas com a trans-formação/processamento de produtos através da acção do fogo/calor, registadas em contextos do Neolítico antigo podiam contribuir para este debate, no entanto, e como abaixo se discute, o registo arqueográfico associado a estes fornos/silos em argila não permite a sua conexão imediata a processos derivados da produção de alimentos.
Na década de 1990 foi possível identificar e caracterizar uma fase média do Neolítico do Maciço Calcário Estremenho, tanto em contextos funerários como de caráter residencial. Estes últimos, que se têm vindo a estudar desde então, localizam-se ao longo Arrife da Serra d’Aire e, aparentemente, repetem o modelo cronocultural proposto para o Alentejo. Porém, tem sido possível obter também informação paleoeconómica direta que, conjugada com as características dos habitats conhecidos, aponta para uma sociedade relativamente móvel.
Nos últimos anos o número de recintos de fossos da Pré-História Recente conhecidos no actual território português tem vindo a aumentar consideravelmente, ainda que de forma regionalmente díspar. A expressão arqueológica que progressivamente apresentam transforma-os numa das “fenomenologias” mais relevantes para o entendimento das comunidades neolíticas e calcolíticas e respectivas dinâmicas sociais. No presente texto pretende-se apresentar um inventário actualizado dos contextos com fossos com datações
absolutas, analisar a cronologia já disponível e sublinhar as linhas de força que se começam a traçar sobre o seu comportamento diacrónico.
O recurso sistemático ao Google Earth e outras imagens aéreas como ferramenta de prospecção com vista à identificação de recintos de fossos da Pré-História Recente tem permitido o aumento significativo do número de contextos deste tipo no interior alentejano, contribuindo decisivamente para uma imagem mais adequada da sua real expressão nesta área da Península Ibérica. Neste texto apresentam-se os procedimentos e os resultados preliminares de uma nova fase do projecto, nomeadamente de 12 novos contextos inéditos na região datáveis dos 4º e 3º milénios a.C..
O presente texto versa sobre os resultados obtidos nos trabalhos realizados pela equipa da Arqueologia & Património Lda. no âmbito da execução do Bloco de Rega de Brinches‑Enxoé
(Serpa). Os trabalhos incidiram num conjunto de estações localizadas nas margens da Ribeira de Enxoé. Nestas estações foram identificados contextos cujo conhecimento contribui para a discussão da complexidade do “mundo em negativo” da Pré‑história Recente do interior alentejano. Com efeito, estas estações apresentam um conjunto diversificado de estruturas em negativo, morfologicamente distintas e com diferentes enchimentos, sendo o objetivo deste texto a apresentação de uma síntese acerca desta variabilidade.
Ao longo do vale da Ribeira de Alfundão (Ferreira do Alentejo) foram realizadas intervenções arqueológicas de emergência no âmbito do projecto de “Minimização de Impactes sobre o Património Cultural decorrentes da execução do Bloco de Rega de Alfundão”, possibilitando a identificação de ocupações caracterizadas por agrupamentos
de estruturas negativas (fossas e “fossos”), cronologicamente enquadradas entre o último quartel do 4º e meados do 3º milénio cal BC. Tentar caracterizar a tipologia funcional dos sítios identificados será um dos objectivos propostos deste trabalho. Neste sentido, procurar‑se‑á questionar e avaliar a sua singularidade (pequenas ocupações?) ou, por outro lado, uma eventual monumentalidade, em que os “distintos” sítios representarão, afinal, uma ocupação de grandes proporções geográficas e sociais, à imagem do “vizinho” Porto Torrão.
A intervenção arqueológica em Porto Torrão permitiu recolher um variadíssimo espólio artefactual, bem como registar um vasto conjunto de estruturas negativas e positivas. O presente artigo foca um conjunto de objectos de adorno, provenientes de diversas áreas, cronologicamente enquadráveis em época Calcolítica.
A intervenção arqueológica em Porto Torrão permitiu recolher um variadíssimo espólio artefactual, bem como registar um vasto conjunto de estruturas negativas e positivas. O presente artigo foca o enterramento efectuado numa das estruturas negativas, junto ao qual foi possível identificar um vasto espólio funerário enquadrável cronologicamente em época Calcolítica.
Neste artigo analisamos os elementos faunísticos de um conjunto de estruturas em negativo de planta sub‑retangular alongada e em forma de “osso” de estações pré‑históricas do interior alentejano. Com esta análise pretendemos contribuir para a caracterização da ocorrência destes elementos no enchimento destas estruturas e, no mesmo sentido, associar o enchimento das estruturas a um conjunto de práticas que pode ser identificado nos restos faunísticos. Deste modo, o estudo da fauna proveniente destes contextos abre as possibilidades de discutir o jogo das práticas que podemos considerar na discussão da construção do espaço “marcada” por estas estruturas.
Este artigo consiste numa primeira abordagem ao conjunto de cerâmica decorada proveniente do povoado do 4.º / 3.º milénio a.n.e. de São Pedro (Redondo, Alentejo Central). Na região alentejana, na cronologia em análise, é comummente aceite a escassez e simplicidade da cerâmica decorada. Os dados apresentados, ainda que não alterem substancialmente este panorama, demonstram uma realidade numericamente mais expressiva e estilisticamente mais diversificada do que o expectável.
Pretendemos organizar as técnicas e os motivos decorativos em grandes grupos e enquadrá‑los nos contextos e fases do povoado em estudo, bem como debater as principais leituras interpretativas apresentadas.
O presente texto tem como objectivo a apresentação dos resultados da primeira campanha de escavação, realizada em 2011, no hipogeu da Barrada (Aljezur), de cronologia atribuível ao Neolítico final / Calcolítico inicial. O monumento funerário é uma gruta artificial escavada no calcário, constituída por dois espaços distintos: uma antecâmera e uma câmara funerária ligadas por uma passagem, sendo o acesso ao exterior realizado por uma rampa. No interior da câmara funerária, selados pelo abatimento da cúpula, surgiram restos osteológicos humanos, reconhecendo‑se algumas conexões anatómicas, correspondendo a indivíduos de várias idades. Os rituais funerários contemplaram o uso de ocre e a deposição de instrumentos de pedra polida e pedra lascada em sílex.
Este trabalho apresenta algumas considerações sobre o conceito de “necrópole megalítica” com base nas observações realizadas na área da Ribeira Grande (Alto Alentejo, Portugal). A ocorrência de agrupamentos de monumentos formando “espaços necropolizados”, juntamente com a situação de monumentos aparentemente isolados na paisagem, permite levantar algumas questões sobre a localização destes monumentos no espaço ocupado, em relação concreta a pontos específicos da paisagem ou a áreas de ocupação preferencial – definindo os possíveis esquemas/diagramas de formação de uma necrópole megalítica, encarados como bases de análise na definição do fenómeno de “megalitização” da paisagem. Destaca‑se aqui uma visão que não se baseia somente numa Arqueologia da Paisagem, mas também numa Arqueologia do Território, na óptica das antigas comunidades camponesas do Sudoeste peninsular.
A investigação arqueoastronómica dos megálitos nacionais foi iniciada nos anos 90, mas não gerou massa crítica para continuar a levantar questões e gerar conhecimento. Esta contribuição retoma o debate, tendo em conta os resultados preliminares de um projeto iniciado em 2010 focado nos dólmens entre o Douro e o Mondego. Através da aplicação de uma metodologia que integra Arqueoastronomia e Arqueologia de Paisagem são observados padrões ao nível do núcleo/necrópole que se integram na narrativa arqueológica, proporcionando mais um elemento para a sua interpretação, mas também levantando novas questões relativas ao fenómeno do megalitismo na região. Esta contribuição pretende estabelecer o ponto da situação relativamente ao papel interpretado pela Astronomia na concepção e utilização dos dólmens do Norte do País.
Pretende‑se neste texto apresentar as figuras antropomórficas e os “ídolos de cornos” identificados no recinto de fossos da Ponte da Azambuja 2 (Portel, Évora). Procura‑se não só efectuar uma descrição morfo‑estilística destes elementos, mas também interpretá‑los em função do contexto em que surgem na Ponte da Azambuja 2, discutindo o seu efectivo significado.
Entre o numeroso espólio proveniente das escavações realizadas por Afonso do Paço e Eugenio Jalhay na fortificação calcolítica de Vila Nova de S. Pedro (Azambuja) entre 1937 e 1964, que integra o acervo do Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, merecem especial destaque as cerca de 220 placas de cerâmica que apresentam representações gráficas. A maior parte dos motivos são geométricos e abstratos, mas encontram‑se também motivos solares e zoomórficos, bem como símbolos de carácter desconhecido e algo enigmático. Geralmente classificados como “pesos de tear”, a função destes artefactos é objecto de discussão, com base em dados etnográficos e na análise dos vestígios de uso apresentados. Analisam‑se ainda as técnicas utilizadas para gravar estar representações, apresenta‑se uma tipologia genérica das mesmas, e discute‑se o seu possível significado.
Apresentam‑se os resultados da análise de composição (XRF) de 121 adornos de pedra verde provenientes do povoado calcolítico de Vila Nova de São Pedro e depositados no Museu Arqueológico do Carmo. Verificaram‑se adornos produzidos sobre talcos, muscovites e variscites. Em relação aos adornos de variscite foi possível estimar as suas prováveis áreas de proveniência com base na comparação com os valores obtidos de materiais geológicos de Zamora, Huelva e Barcelona, com maior incidência na primeira.
O Outeiro Redondo (Sesimbra) é um sítio arqueológico importante da Estremadura Portuguesa, predominantemente ocupado durante o Calcolítico Pleno/Final (segunda metade do III Milénio a.C.). Este estudo foca‑se na caracterização elementar e microestrutural de 12 artefactos em liga de cobre e de um fragmento de cadinho provenientes deste sítio, contribuindo assim para o conhecimento da metalurgia primitiva naquela região. A metodologia aplicada consistiu em espectrometria de fluorescência de raios‑X dispersiva de energias, microscopia óptica, microscopia electrónica de varrimento com microanálise de raios‑X e microdureza Vickers. O arsénio está presente em todos os fragmentos metálicos, quer como impureza (2 wt%), os quais apresentam constituintes microestruturais característicos de diversos processos termomecânicos. O cadinho mostra evidências de uso em operações metalúrgicas de redução de minérios.
Apesar da Península de Lisboa apresentar uma grande abundância de sítios de habitat com campaniforme, são escassos os dados de escavação, reportando‑se essencialmente aos povoados fortificados. Na área da Ribeira de Cheleiros (Mafra, Sintra), na última década foram identificados e escavados novos habitats. Casal Cordeiro 5, com uma vasta área de escavação (272 m2) apresenta‑se como caso de estudo. Trata‑se de um sítio aberto, com uma ampla área de dispersão de materiais, conservando‑se ainda 3 núcleos correspondendo a 3 cabanas. O modelo de ocupação e a cultura material permitem avançar para uma proposta de transição para o Calcolítico final, no 3º quartel do 3º milénio. Destaca‑se a coexistência de cerâmica com decoração folha de acácia e campaniforme.
O sítio pré‑histórico do Freixo, situado nas encostas setentrionais da Serra de Candeeiros, apresenta ocupações referentes ao Neolítico antigo e ao Calcolítico final, sendo o primeiro período estatisticamente mais expressivo. O espólio relativo ao último período caracteriza‑se por cerâmicas campaniformes (lisas e com decoração geométrica incisa) e alguns poucos artefactos líticos claramente associáveis às comunidades calcolíticas (tais como pontas de seta, utensílios sobre lâmina espessa e machados de secção rectangular), permitindo evidenciar uma ocupação ténue do espaço (um pequeno acampamento sazonal?) – sendo a escassez de espólio arqueológico apenas reflexo dessa funcionalidade específica. No entanto, a carência de contextos campaniformes na área da Alta Estremadura legitima a sua divulgação.
O presente artigo pretende dar a conhecer de forma sucinta os materiais recolhidos na intervenção arqueológica de emergência efectuada no Povoado do Murtal, Cascais, em 2003 pela Câmara Municipal de Cascais.
Actualmente conhecem‑se no nosso território cerca de 65 sítios com pintura rupestre esquemática. A iconografia presente nestes sítios, apesar de mostrar algumas variações regionais, é na sua maioria muito homogénea, resultante do seu enquadramento no universo conceptual das comunidades que habitaram estes territórios durante a pré‑história recente. Através da análise iconográfica, tipológica e de implantação destes abrigos foram definidos dois grandes períodos crono‑culturais, o primeiro (Arte Esquemática Semi‑Naturalista) no momento de emergência das primeiras comunidades agro‑pastoris, e o segundo (Arte Esquemática Ideográfica), numa época de consolidação e domínio efectivo do território.
Nesta comunicação apresentamos os resultados dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos no Abrigo da Igreja dos Mouros e a sua relação com a informação já disponível sobre arte esquemática da Serra de S. Mamede. Divulgam‑se, igualmente, as datas de radiocarbono obtidas nos abrigos pintados desta região.
Em 2006 foi identificado um pequeno abrigo localizado na margem direita do Rio Erges, perto da povoação fronteiriça de Segura (Idanha‑a‑Nova). Este abrigo, denominado de Abrigo de Segura, encontra‑se numa área muito encaixada do rio, formada por um imponente canhão granítico, estando a cerca de 30 m de altura, sendo o acesso ao seu interior extremamente difícil. O reportório iconográfico distribui‑se por dois painéis, que apresentam motivos esquemáticos, sendo de destacar um interessante motivo soliforme. Através da análise estilística, iconográfica e contexto arqueológico enquadramos este abrigo com pinturas no denominado ciclo da Pintura Rupestre Esquemática (PRE), cuja cronologia se insere na Pré‑História Recente.
Os estudos de pigmentos utilizados nas pinturas pré‑históricas permitem alcançar as intenções dos artistas, as matérias‑primas selecionadas, as técnicas de preparação e composição dos pigmentos usados.
Sabemos que os poucos dados existentes demonstram uma heterogeneidade das misturas utilizadas e a existência de variados métodos analíticos que se enquadram em cada objetivo específico. A utilização da espectroscopia micro‑raman e a microfluorescência‑x vêm assim colmatar uma área de investigação em que os resultados obtidos atingem o seu propósito na medida em que são identificadas as substâncias que compõem os pigmentos, alcançando detalhes dos processos de produção destes, tais como o aquecimento, esmagamento ou mistura de substâncias (ex. aglutinantes) no processo de preparação.
O projecto Ruptejo (2008‑2012) apresentou‑se como uma tentativa de colmatar algumas lacunas no estudo da Pré‑História do Alto Ribatejo. O Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo centrou‑se assim como alvo de diferentes abordagens desde a sua descoberta tendo a investigação se concentrado nos seus aspectos mais importantes e nos contextos regionais. A abordagem contextual inclui outros sítios de arte rupestre que se localizam no âmbito da sua bacia hidrográfica. A representação do cervídeo na arte rupestre portuguesa e, principalmente, tagana surge como parte integral da investigação. As associações com outras gravuras, a paisagem e geografia do mesmo poderá revelar o a importância do papel que este animal representa no mundo conceptual das comunidades pré‑históricas nesta parte da Europa.
Dá‑se a conhecer sítio com arte rupestre, cuja iconografia é esmagadoramente constituída por covinhas. Trata‑se de grande superfície, polida pelas águas da ribeira do Barranco do Sambro, pertencente à rede hidrográfica do Mira. A superfície decorada encontra‑se ciclicamente submersa, pelo que as gravuras mostram elevado grau de erosão. Frente àquela observa‑se escarpa vertical que, por certo, contribuiu para a cenografia dos comportamentos ritualizados que conduziram à realização das gravuras. Além de figuras subcirculares, produzidas por picotagem, registaram‑se 195 covinhas, com contorno subcircular ou oval e de diferentes dimensões. Reconheceram‑se covinhas organizadas em linhas, assim como alinhamentos paralelos. Dois destes, de maiores dimensões, podem ter constituído tabuleiros de jogos, cuja utilização durante a Pré‑História deveria ultrapassar a função lúdica e integrar contexto sócio‑religioso. Alguns paralelos permitem atribuir as gravuras da Várzea Grande ao Neolítico Final.
Na Península Ibérica o reconhecimento e estudo da Arte Atlântica tem início no séc. XIX, prolongando‑se até aos dias de hoje. Não obstante, grande parte das abordagens, meramente descritivas, cingem‑se à sua apreciação estética, sendo pouco dotadas de profundidade analítica e negligenciando o seu contexto sociocultural. Verifica‑se uma ausência de estudos sistemáticos e comparativos que contribuam para a discussão epistemológica inerente à matéria.
Este artigo pretende fazer uma breve revisão crítica da investigação e procedimentos científicos conduzidos ao longo do tempo quanto à Arte Atlântica, bem como procurar perceber de que forma a historiografia influenciou e limitou as interpretações dominantes, propondo futuras linhas de investigação holísticas e interdisciplinares, visando uma compreensão mais ampla do fenómeno, focada na sua contextualização sociocultural.
No actual território português assistimos a uma paisagem megalítica com espaços sociais diversificados que revelam a coexistência de diferentes expressões culturais. Essas diferenças culturais são notáveis quando analisamos a iconografia apresentada nos menires.
Para obter uma resposta preliminar sobre se existiu ou não uma relação entre as comunidades neolíticas do Barlavento Algarvio e do Alentejo, nomeadamente do Alentejo Central, ao nível da arte menírica, procurou‑se fazer uma avaliação global dos menires decorados destas duas regiões com o objectivo de realizar uma comparação iconográfica. As diferenças iconográficas observadas, que parecem suplantar as semelhanças, levantam inúmeras questões e possibilidades interpretativas.