Arqueologia em Portugal: 2020 - Estado da Questão

9. Época Moderna e Contemporânea

 

9.1 ARQUEOLOGIA MODERNA EM PORTUGAL: ALGUMAS REFLEXÕES CRÍTICAS EM TORNO
DA QUANTIFICAÇÃO DE CONJUNTOS CERÂMICOS E SUAS INFERÊNCIAS HISTÓRICAS
E ANTROPOLÓGICAS

Rodrigo Banha da Silva / André Bargão / Sara da Cruz Ferreira

A Arqueologia Moderna vem notoriamente ganhando espaço na Arqueologia Portuguesa, não só no que se refere ao número de intervenções arqueológicas, como no que respeita ao número de publicações de sítios, contextos e cultura material. Ressalta, todavia, que este crescendo de conhecimento não aparece acompanhado de uma maior sofisticação metodológica, debruçando-se os autores sobre um dos aspectos deste panorama: a quantificação de conjuntos artefactuais, em particular cerâmicas, e a relação desta com o esclarecimento dos perfis funcionais dos contextos arqueológicos respectivos; deverá notar-se que um e outro elemento são condições de base essenciais para a produção das inferências de carácter histórico e antropológico.

 

9.2. FAIANÇAS DE DOIS CONTEXTOS ENTRE OS FINAIS DO SÉCULO XVI E XVIII DO PALÁCIO DOS CONDES DE PENAFIEL, LISBOA
Martim Lopes / Tomás Mesquita

O Palácio dos Condes de Penafiel, em Lisboa, foi alvo de intervenções arqueológicas entre 1992 e 1993, nas quais foram exumados três contextos de Época Moderna, entre os séculos XVI e XVIII (1755), quando está documentada a destruição do edifício prévio ao actual palácio dos Condes de Penafiel.
Os autores propõem-se analisar o espólio de faiança europeia proveniente dos dois contextos mais antigos, associados à desativação de uma conduta baixo-medieval (final do século XVI-XVII) e a edificação da primitiva unidade habitacional (1º quartel do século XVI) que colapsa em 1755, onde foram recolhidas cerâmicas utilizadas na construção do edifício.

 

9.3 UM PERFIL DE CONSUMO DO SÉCULO XVIII NA FOZ DO TEJO: O CASO DO MERCADO DA RIBEIRA, LISBOA
Sara da Cruz Ferreira / Rodrigo Banha da Silva / André Bargão

Nos finais de 2003 e em 2004, no âmbito da remodelação interna da ala este do Mercado da Ribeira, em Lisboa, foram colocados a descoberto os remanescentes do Forte e Cais de São Paulo. Estas estruturas encontravam-se erguidas sobre uma campanha de aterros, que visou reerguer a destruída freguesia de São Paulo após o terramoto de 1755. Nos estratos de nivelamento foi identificado um amplo conjunto cerâmico com cronologias homogéneas, compreendidas na primeira metade do século XVIII, exemplificativo do perfil de consumo da Ribeira Ocidental de Lisboa, sendo este conjunto o elemento de análise no presente estudo. Acresce, também, o objectivo de trazer à comunidade arqueológica diversas categorias cerâmicas que pautam estes quotidianos e que tão escassamente integram estudos de arqueologia de época moderna.

 

9.4 OS CACHIMBOS DOS SÉCULOS XVII E XVIII DO PALÁCIO MESQUITELA E CONVENTO DOS INGLESINHOS (LISBOA)
Inês Simão / Marina Pinto / João Pimenta / Sara da Cruz Ferreira / André Bargão / Rodrigo Banha da Silva

Em 2004 e 2009 foram realizadas pela empresa Era-Arqueologia duas intervenções arqueológicas de carácter preventivo, decorrentes de projectos de reabilitação e reconversão de espaços na zona do Bairro Alto, em Lisboa. Sendo ambos os lugares de cronologia seiscentista, equivalem a bem distintos perfis socio-económicos de ocupação: o primeiro, o Venerável Colégio Pontifício de São Pedro e de São Paulo (vulgo Convento dos Inglesinhos), dedicado ao ensino católico da comunidade Inglesa; o segundo, o espaço residencial dos Condes de Mesquitela.
A despeito de todas as limitações contextuais arqueológicas, o estudo assinala as diferentes proporções com que os dois conjuntos se apresentam, deste modo se comprovando o uso dos cachimbos como indicador arqueológico significante para a análise dos espaços urbanos.

 

9.5 «TOMAR OS FUMOS DA ERUA QUE CHAMÃO EM PORTUGAL ERUA SANCTA». ESTUDO DE CACHIMBOS PROVENIENTES DA RUA DO TERREIRO DO TRIGO, LISBOA
Miguel Martins de Sousa / José Pedro Henriques / Vanessa Galiza Filipe

A intervenção arqueológica da Rua do Terreiro do Trigo reporta-se ao ano de 2018 e foi motivada pela intenção camarária de instalar ecopontos subterrâneos em determinadas áreas de Lisboa. Entre o conjunto de cachimbos exumados é possível identificar um numeroso grupo de cachimbos de caulino europeus, cronologicamente inseridos entre os séculos XVII e XVIII, bem como um conjunto peculiar de chibuques de pasta negra e cinzenta de origem desconhecida. Este estudo procura, em primeira instância, apresentar o conjunto de cachimbos da Rua do Terreiro do Trigo, mas também abordar o hábito do consumo de tabaco a partir de fontes interdisciplinares referentes à investigação da Idade Moderna.

 

9.6 CACHIMBOS DE BARRO CAULÍNITICO DA SÉ DA CIDADE VELHA (REPÚBLICA DE CABO VERDE)
Rodrigo Banha da Silva / João Pimenta / Clementino Amaro

Numa cooperação entre as autoridades da República de Cabo Verde e o extinto Instituto Português do Património Cultural, uma escavação arqueológica extensa foi dirigida entre 1989 e 1993 por um dos autores (C.A.- Amaro, 2013) nas ruínas da catedral da antiga cidade da Ribeira Brava.
Os trabalhos revelaram diversos contextos dos séculos XVII e XVIII realcionados com reformas do edifício religioso, providenciando uma valiosa visão sobre a cultura material do período colonial em Cabo Verde. Àparte outras evidências de produtos oleiros europeus, foram recolhidos fragmentos de 21 cachimbos, evocativos das realações comerciais entre o Império Português e outros espaços políticos, igualmente sugestivos da frequência do consumo de tabaco na época.

 

9.7. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ESPÓLIO NÃO CERÂMICO RECUPERADO NO LARGO DE JESUS (LISBOA)
Carlos Boavida

Em 2005, a construção de um parque de estacionamento subterrâneo no Largo de Jesus, em Lisboa, levou à realização de uma intervenção arqueológica, num espaço que corresponde ao antigo adro da Igreja de Jesus, actual igreja paroquial das Mercês.
Além de outros vestígios, ali foram identificadas as fundações de uma escadaria de acesso à igreja, assim como diversas estruturas murárias, ao que tudo indica, anteriores ao Terramoto de 1755 e relacionadas com uma zona de armazéns que poderiam ter pertencido ao palácio Mendia, a Oeste do largo e totalmente remodelado após o sismo. A intervenção permitiu também verificar que distintas obras de remodelação daquele espaço foram progressivamente eliminando as realidades espaciais anteriores, comprometendo e dificultando a sua leitura, pois afectaram daquele modo todos os contextos estratigráficos detectados.
São numerosos os vestígios das materialidades quotidianas que se encontravam naquelas realidades, com especial destaque para os recipientes cerâmicos; no entanto, é objectivo deste trabalho dar a conhecer alguns dos artefactos não cerâmicos ali recuperados.

 

9.8 ADEREÇOS DE VIDRO, DOS SÉCULOS XVI-XVIII, PROCEDENTES DO ANTIGO CONVENTO DE SANTANA DE LISBOA (ANÉIS, BRACELETES E CONTAS)
Joana Gonçalves / Rosa Varela Gomes / Mário Varela Gomes

A escavação de parte do espaço onde se erguia o Convento de Santana de Lisboa (sécs XVI-XIX), proporcionou não só o conhecimento de algumas das suas estruturas, como milhares de artefactos ou os seus fragmentos, entre os quais se contam adereços de vidro. Nestes incluímos anéis, braceletes e significativa colecção de contas, procedentes de lixeiras ou de sepulturas. As contas apresentam acentuado poliformismo e cromatismo, podendo ser classificadas nos finais do século XVI e principalmente na centúria seguinte. São originárias de Itália, Holanda e, talvez, Inglaterra denunciando, tal como o restante espólio, sociedade abastada, de gosto requintado, capaz de recorrer aos circuitos comerciais internacionais, tendo em vista responder à moda de então, mas também à manutenção dos seus estatutos sociais.

 

9.9 ESPÓLIO DE CERÂMICAS FINAS ROMANAS E SEPARADORES DOS FORNOS DO MORRAÇAL DA AJUDA (PENICHE, PORTUGAL)
Jéssica Iglésias

Ao longo dos séculos e pelo mundo, as joias e os objetos de adorno pessoais, desde sempre fascinaram o ser humano. Estes objetos passaram a ser usados como uma demonstração pública de riqueza cultural, pessoal, e do gosto próprio do seu utilizador tanto em vida como na morte.
Neste sentido o uso destes objetos durante os séculos XIV-XVIII, elaborados em diversas matérias primas, proporcionaram o surgimento e criação de elementos híbridos, que em grande medida foram consequentes de influências provocadas pela experiência ultramarina portuguesa, e pelas transformações sofridas nos gostos e modas europeias que contribuíram para a criação de uma nova sociedade, que continuou a acreditar nos valores apotropaicos e profiláticos de matérias-primas absorvendo novas crenças resultantes dos contactos com novas culturas.

 

9.10 OS AMULETOS EM PORTUGAL – DOS OBJETOS ÀS SUPERSTIÇÕES: O CORAL VERMELHO
Alexandra Vieira

O estudo dos amuletos – objetos com um carácter apotropaico, ou seja, de proteção física e espiritual –, que possuem, por exemplo, o poder de evitar doenças, malefícios ou desgraças, e das superstições a eles associadas, contempla uma parte importante da vida das comunidades: as suas crenças e tradições, que refletem a forma como as pessoas se relacionam com o universo que as rodeia, com a sua interpretação do mundo em que vivem, com as suas práticas do quotidiano. O objetivo deste trabalho passa por tentar conhecer os amuletos elaborados a partir de corais (vermelhos) que se encontram associados às tradições e aos costumes das comunidades portuguesas, durante as épocas moderna e contemporânea.

 

9.11 CERÂMICAS DE VILA FRANCA DE XIRA NOS SÉCULOS XV E XVI
Eva Pires

A intervenção arqueológica efectuada no sítio do Ateneu Artístico Vilafranquense em 2007, no âmbito da arqueologia preventiva, revelou dados acerca do aglomerado urbano de Vila Franca de Xira durante a Baixa Idade Média e início da Idade Moderna.
O estudo realizado sobre a totalidade do espólio proveniente desta intervenção, constituído por um conjunto de cerâmicas, faunas, vidros, metais e líticos, permitiu inferir o cariz doméstico deste contexto composto por restos de consumo da população urbana. Apresentam-se os resultados finais da análise dos materiais cerâmicos que correspondem a um total de 492 peças identificáveis (NMI), associadas maioritariamente aos séculos XV e XVI.

 

9.12 “NÃO PASSA POR TEU O QUE ME PERTENCE”. MARCAS DE INDIVIDUALIZAÇÃO ASSOCIADAS A FAIANÇAS DO CONVENTO DE NOSSA SENHORA DE ARACOELI, ALCÁCER DO SAL
Catarina Parreira / Íris Fragoso / Miguel Martins de Sousa

Fundado em 1573 por Rui Salema e Catarina Sotto Mayor Salema, o Convento de Nossa Senhora de Aracoeli, instalou-se nos antigos paços mestrais da Ordem de Santiago. Extinto em 1874, foi-se degradando até à requalificação em Pousada D. Afonso II. Na sequência das campanhas arqueológicas realizadas entre 1993 e 1997, identificou-se expressivo espólio do qual se destaca uma ampla coleção de faiança portuguesa de diversas tipologias e cronologias.
A problemática que se apresenta relaciona-se com motivos incisos que o estudo das faianças, recolhidas em duas áreas da cerca conventual, proporcionou. Assim, a análise aferida utiliza o espólio como indicador socioeconómico, levando à inserção do conjunto de faianças no quotidiano conventual, quiçá profilático, de Alcácer do Sal.

 

9.13 CERÂMICA DE LEIRIA: ALGUNS FOCOS DE PRODUÇÃO
Jaqueline Pereira / André Donas-Botto

A dinâmica urbanística de Leiria, de matriz medieval, é estruturada no século XIII e XIV. Consolida-se e expande-se nas centúrias seguintes. A emergência de cerâmica em Leiria, centro onde abunda a matéria prima, parece acontecer paralelamente à produção noutros centros. As recentes descobertas arqueológicas na zona urbana, mostram estruturas e produtos resultantes desta actividade e revelam a deposição dos refugos em diferentes áreas, sempre que fosse necessário atulhar alguns pontos, dentro ou fora de edifícios.

 

9.14 OS FORNOS NA RUA DA BIQUINHA, EM ÓBIDOS
Hugo Silva / Filipe Oliveira

Na sequência dos trabalhos arqueológicos (sondagens e acompanhamento), que decorreram no âmbito da requalificação do edifício nº64, na Rua da Biquinha, situada no perímetro extra muralhas do Castelo de Óbidos, foram identificados e intervencionados contextos arqueológicos preservados que retratam a ocupação do local entre finais do séc. XV/ princípio do séc. XVI até ao séc. XX.
Estes trabalhos permitiram a identificação de um conjunto de quatro fornos localizados no interior do edifício. Estas estruturas de combustão, de plano sub-circular e possível produção cerâmica, encontravam-se escavada no geológico e tinham associado um escasso acervo material, de cronologia Medieval/Moderna.

 

9.15 A CASA DE PÊRO FERNANDES, CONTADOR DOS CONTOS DE D. MANUEL I: O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA SILHA DO ALFERES, SEIXAL (SÉCULO XVI)
Mariana Nunes Ferreira

O sítio arqueológico da Silha do Alferes foi descoberto em 1984. Escavações não autorizadas foram desenvolvidas por detectoristas e o local pilhado. Nesse mesmo ano, o Ecomuseu do Seixal procedeu à recolha, lavagem e armazenamentos dos materiais. O espólio sobrevivente, do qual não contam metais, encontra-se bem preservado. É composto por várias peças completas tais como taças, pratos, púcaros, testos, fogareiros entre outros, característicos de um contexto doméstico. A tipologia dos artefactos corresponde a uma deposição da primeira metade do século XVI. Este trabalho pretende dar a conhecer este sítio arqueológico debatendo a sua importância para o conhecimento da zona do Seixal nesta época.

 

9.16 ALTO DA VIGIA (SINTRA) E A VIGILÂNCIA E DEFESA DA COSTA
Alexandre Gonçalves / Sandra Santos

O Alto da Vigia localiza-se numa arriba sobranceira ao mar, junto à foz do rio de Colares, em Sintra, e tendo sido identificados no local vestígios de um santuário romano, de um ribat islâmico e de uma vigia da costa de época moderna. Apresentam-se aqui algumas materialidades relativas a esta última ocupação, datável do início do século XVI até à primeira metade do XIX, um período de vários séculos durante o qual o sítio integrou um sistema de vigilância do litoral.
Para além da escavação arqueológica, a realização de prospeções e a consulta de fontes históricas, permitiu adicionar novos elementos relacionados com a vigilância do litoral da região a Norte do estuário do Tejo entre os séculos XVI e XIX.

 

9.17 CONTEXTO DA TORRE SINEIRA DA IGREJA DE SANTA MARIA DE LOURES
Paulo Calaveira / Martim Lopes

Teve lugar em 2003 uma intervenção arqueológica de emergência, por parte do município de Loures na área exterior da Igreja de Santa Maria de Loures.
Os autores procuram efetuar uma contextualização histórica deste edificado, bem como uma análise das evidências materiais exumadas e a sua relação com o contexto em que se inserem. Assim, apresentam-se os dados obtidos pelo estudo do espólio cerâmico e metálico, e a sua relação com as sepulturas e ossários que foram escavados, tendo também em consideração as relações estratigráficas existentes.
Este é um contexto de relevância para a história de Loures Medieval/Moderna, dado que a igreja desempenhará um papel crucial no desenvolvimento do traçado urbano da povoação.

 

9.18 A NECRÓPOLE DO HOSPITAL MILITAR DO CASTELO DE SÃO JORGE E AS PRÁTICAS FUNERÁRIAS NA LISBOA DE ÉPOCA MODERNA 
Susana Henriques / Liliana Matias de Carvalho / Ana Amarante / Sofia N. Wasterlain

A necrópole identificada na Rua do Recolhimento 7/9, Castelo de São Jorge (Lisboa, Portugal) corresponderá ao cemitério do Hospital Militar, localizado nas proximidades, activo entre os Séculos XVI e XVIII. Durante a escavação arqueológica foram identificadas sepulturas individuais, múltiplas, valas comuns e ossários. A organização espacial torna-se evidente em vários enterramentos, com a sobreposição de enterramentos que cortam os mais antigos, tendo sido observados esqueletos em decúbito dorsal, ventral e lateral (alguns contra paredes/muros), nem sempre em conformidade com a regra canónica cristã.
Nesta necrópole da Idade Moderna existe uma grande variedade de práticas funerárias que refletem o tratamento da morte na moderna sociedade de Lisboa, transmitindo as suas preocupações sociais, culturais e religiosas. Simultaneamente, as práticas funerárias neste local tornaram-se uma ameaça à saúde pública, consequência da quantidade de corpos depositados num limitado espaço, físico e cronológico.

 

9.19 SAND – SARILHOS GRANDES ENTRE DOIS MUNDOS: O ADRO DA IGREJA E A PALEOBIOLOGIA DOS OSSOS HUMANOS RECUPERADOS
Paula Alves Pereira / Roger Lee Jesus / Bruno M. Magalhães

A escavação arqueológica de salvaguarda realizada em 2008 no Largo da Igreja de Sarilhos Grandes originou um projeto de investigação interdisciplinar que visa o estudo da sua população desde época Medieval. Este trabalho pretende discutir a análise paleobiológica da coleção osteológica humana escavada em 2008. Foi estimado um número mínimo de 24 indivíduos entre o total de 21 enterramentos mal preservados, 5 ossários e restantes ossos desarticulados. De entre as lesões identificadas (e.g., cáries, tártaro, osteomas, nódulo de Schmorl, osteoartrose), várias parecem indiciar deficiências nutricionais, principalmente nos indivíduos mais jovens. Uma nova intervenção arqueológica está já programada para o local de forma a serem aprofundadas várias questões e abertas novas perpetivas sobre a população de Sarilhos Grandes.

 

9.20 EXPANSÃO URBANA DA VILA DE CASCAIS NO SÉCULO XVII E XVIII: A INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA NA RUA DA VITÓRIA Nº 15 A 17
Tiago Pereira / Vanessa Filipe

Os trabalhos arqueológicos realizados na Rua da Vitória nº 15 a 17 em Cascais, no âmbito de um projeto de reabilitação urbana, tiveram como objectivo a escavação integral do subsolo no interior do edifício.
A intervenção permitiu caracterizar o edifício original implantado neste local entre os finais do século XVII início do século XVIII. Os dados aqui apresentados apontam para um espaço urbano que é precedido por uma pequena área de exploração agrícola, abandonado com o aparecimento de aterros e fossas para despejo de lixo doméstico.
Estamos perante a evolução urbana da vila de Cascais com a expansão para áreas limítrofes pouco urbanizadas e anteriormente utilizadas como lixeiras da vila.

 

9.21 NOVOS DADOS PARA O CONHECIMENTO DO URBANISMO DE FARO EM ÉPOCA MODERNA
Ana Rosa

Em 2018, no âmbito de um Projecto Hoteleiro a construir na área delimitada pela Rua Vasco da Gama e a Rua Santo António (Faro), foram realizadas nove sondagens de diagnóstico e acompanhamento arqueológico de todas as movimentações de terras, na área a intervencionar, até à cota de afectação da obra.
Os trabalhos arqueológicos permitiram desvendar parte do traçado pré-urbano da Baixa de Faro e contextos associados ao quotidiano da população em época Moderna. Decorrente da expansão da cidade fora do núcleo primitivo (Vila-Adentro), esta área foi integrada, no século XVI, por um novo recinto amuralhado, indicando-nos uma ocupação contínua do espaço até ao presente.

 

9.22 UM EXEMPLO DE ARQUEOLOGIA URBANA EM ALCOUTIM: O ANTIGO EDIFÍCIO DOS CTT
Marco Fernandes / Marta Dias / Alexandra Gradim / Virgílio Lopes / Susana Gómez Martínez

Este artigo pretende divulgar os principais resultados dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos, entre Agosto de 2019 e Fevereiro de 2020, pela equipa do Campo Arqueológico de Mértola, num edifício conhecido como os Antigos CTT. Este imóvel localizava-se a Oeste do castelo de Alcoutim e dentro do seu perímetro amuralhado de período moderno, sendo, desde logo, uma área de carácter arqueológico importante para a compreensão da dinâmica ocupacional deste aglomerado.
Esta intervenção decorreu em duas fases distintas: sondagens de diagnóstico e acompanhamento arqueológico / escavação. Tais acções permitiram a identificação de um conjunto de estruturas e de níveis associados que apontam para uma diacronia que se inicia no século XV.

 

9.23 PALÁCIO DOS FERRAZES (RUA DAS FLORES/RUA DA VITÓRIA, PORTO): A COCHEIRA DE DOMINGOS OLIVEIRA MAIA
Francisco Raimundo

No âmbito da empreitada de reabilitação e reconversão do Palácio dos Ferrazes numa unidade hoteleira, cuja implantação englobava dois edifícios, um voltado para a Rua das Flores (Palácio) e outro para a Rua da Vitória (duas unidades fabris) incluindo o logradouro existente entre eles, apresenta-se uma breve caracterização da ocupação do espaço na área correspondente ao segundo edifício. Esta caracterização é elaborada com base no acompanhamento arqueológico do desmonte/demolição do edificado existente, aliada aos dados recolhidos na escavação arqueológica e suplementada por algumas fontes documentais, o que nos permitiu reconstituir a cocheira datada do século XIX, mandada construir por Domingos Oliveira Maia, assim como ocupações anteriores datáveis dos séculos XVII/XVIII.

 

9.24 AS MUITAS VIDAS DE UM EDIFÍCIO URBANO: HISTÓRIA, ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA NO ANTIGO RECREATÓRIO PAROQUIAL DE PENAFIEL
Helena Bernardo / Jorge Sampaio / Marta Borges

O trabalho que ora se apresenta sintetiza os resultados da intervenção arqueológica levada a cabo entre Outubro de 2018 e Abril de 2019, no âmbito do Projecto de Recuperação e Restauro do Recreatório Paroquial Penafidelense (freguesia e concelho de Penafiel, distrito do Porto), localizado no núcleo primitivo do lugar de Arrifana de Sousa, da antiga freguesia de S. Martinho de Moazares, hoje em pleno Centro Histórico da cidade de Penafiel. O edifício reveste-se de particular interesse patrimonial pelo conjunto variado de funções que lhe foram destinadas entre o século XIV (?) e a actualidade: albergaria/hospital, capela, sede da Irmandade da Misericórdia e teatro.

 

9.25 O CONVENTO DE NOSSA SENHORA DA ESPERANÇA DE PONTA DELGADA: O CONTRIBUTO DA ARQUEOLOGIA PARA O CONHECIMENTO DE UM MONUMENTO IDENTITÁRIO
João Gonçalves Araújo / N’Zinga Oliveira

O convento Nossa Senhora da Esperança localiza-se na cidade de Ponta Delgada e assume-se como um dos principais conjuntos patrimoniais do arquipélago dos Açores. O espaço foi alvo de uma intervenção arqueológica entre 2015 e 2016 no âmbito de um projeto de restauro e reabilitação. Os resultados alcançados permitiram detetar diversas fases de ocupação entre os séculos XVI e XIX, particularmente intensas a partir da segunda metade do século XVII e inícios do século XVIII, época em que surge o culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O convento de Nossa Senhora da Esperança foi um dos poucos que sobreviveu na ilha ao decreto de extinção das ordens religiosas, mantendo, em parte, a sua função original até à atualidade.

 

9.26 ARQUEOLOGIA NA ILHA DO CORVO… EM BUSCA DA CAPELA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
Tânia Manuel Casimiro / José Luís Neto / Luís Borges / Pedro Parreira

Entre 2014 e 2018 efectuaram-se quatro missões de arqueologia na ilha do Corvo, no arquipélago dos Açores, procurando promover a ligação entre a história, a arqueologia e a comunidade local. O objectivo principal era a descoberta de vestígios da primitiva capela de Nossa Senhora do Rosário, primeiro templo da ilha, fundado nos finais do século XVI, entretanto desaparecido. Ainda que a existência da dita capela não tenha sido confirmada foram produzidos novos contributos para o estudo da realidade insular de uma ilha periférica, mas intrinsecamente ligada às grandes rotas transatlânticas da Época Moderna. A cultura material identificada permitiu gerar conclusões sobre a ocupação daquele território entre o século XVI e o século XX sobretudo a nível do consumo doméstico, tipo de alimentação e economia.

 

9.27 PERDIDOS À VISTA DA COSTA. TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS SUBAQUÁTICOS NA BARRA DO TEJO
Jorge Freire / José Bettencourt / Augusto Salgado

Desde tempos imemoriais que todos os navios que entram ou saem de Lisboa, capital de um vasto Império Marítimo desde o século XV, têm que passar por um dos dois canais estreitos na entrada do Tejo. Esses canais encontram-se limitados não apenas pelas margens, como também por duas línguas de areia, denominadas “Cachopos”. Pela sua geografia, esta área está bem protegida dos ventos do norte ou leste, mas completamente aberta a tempestades do sul. Principalmente durante essas tempestades, foram vários os navios que naufragaram na costa norte, ou contra ambos os cachopos. Desde a década de 1960 que vários naufrágios modernos e contemporâneos foram ali descobertos. Esta comunicação pretende apresentar os trabalhos que têm estado a decorrer na zona desde 2015, no âmbito da Carta Arqueológica Subaquática de Cascais.

 

9.28 ARQUEOLOGIA MARÍTIMA EM CABO VERDE: ENQUADRAMENTO E PRIMEIROS RESULTADOS DO PROJECTO CONCHA
José Bettencourt / Adilson Dias / Carlos Lima / Christelle Chouzenoux / Cristóvão Fonseca / Dúnia Pereira / Gonçalo Lopes / Inês Coelho / Jaylson Monteiro / José Lima / Maria Eugénia Alves / Patrícia Carvalho / Tiago Silva

Entre os parceiros da Cátedra UNESCO O Património Cultural dos Oceanos contam-se o CHAM e o Instituto do Património Cultural de Cabo Verde, que definiram como tarefa essencial a carta arqueológica subaquática daquele arquipélago. Esta acção iniciou-se em 2018 no âmbito do projecto Europeu CONCHA, que tem como objectivo analisar o desenvolvimento das cidades portuárias no Atlântico durante a época moderna.
As missões do CONCHA realizaram-se na ilha de Santiago, no fundeadouro da Ribeira Grande, no naufrágio de São Francisco (século XVII) e no Urânia (1809). Incluíram o mapeamento e a revisão de documentação e dos materiais arqueológicos destes sítios, em depósito no Museu de Arqueologia. Foram igualmente desenvolvidas actividades de divulgação e acções de formação. Esta comunicação sistematiza os resultados destes trabalhos.

 

9.29 TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS NA CIDADE VELHA (RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO, CABO VERDE): REFLEXÕES SOBRE UM PROJECTO DE INVESTIGAÇÃO E DIVULGAÇÃO PATRIMONIAL
André Teixeira / Jaylson Monteiro / Mariana Mateus / Nireide Tavares / Cristovão Fonseca / Gonçalo C. Lopes / Joana Bento Torres / Dúnia Pereira / André Bargão / Aurélie Mayer / Bruno Zélie / Carlos Lima / Christelle Chouzenoux / Inês Henriques / Inês Pinto Coelho / José Lima / Patrícia Carvalho/ Tiago Silva

Entre 2018 e 2020 decorreram trabalhos arqueológicos na Cidade Velha, a antiga capital de Cabo Verde, que prosperou entre os séculos XVI e XVII como entreposto atlântico do comércio de escravos e base de apoio à navegação oceânica. As escavações incidiram sobre dois locais: um contexto habitacional numa das suas principais artérias, a rua da Banana, e num dos mais antigos espaços de culto do arquipélago, a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Estas intervenções permitiram recolher novos dados sobre o urbanismo e espaços de habitat da antiga cidade aquando do seu abandono no século XVIII, bem como sobre a configuração daquela estrutura religiosa. A investigação articulou-se com o programa educativo do Museu de Arqueologia, de Cabo Verde.

 

9.30 A ANTIGA FORTIFICAÇÃO DE QUELBA / KHOR KALBA (E.A.U.). RESULTADOS DE QUATRO CAMPANHAS DE ESCAVAÇÕES, PROBLEMÁTICAS E PERSPECTIVAS FUTURAS
Rui Carita / Rosa Varela Gomes / Mário Varela Gomes / Kamyar Kamyad

Quatro curtas campanhas de escavações arqueológicas, efectuadas de 2017 a 2020, conduziram à identificação de ruínas da antiga fortaleza de Quelba/Khor Kalba (Emirado de Sharjah), na costa do Golfo de Omã, que os portugueses, sob o comando de Gaspar Leite, tomaram em 1624 e onde terão permanecido cerca de duas décadas.
A fortificação foi construída em taipa, apenas parcialmente assente em alicerces de pedra, possuía planta de forma quadrangular, medindo 50 m de lado e era protegida, pelo menos nos dois cantos voltados para o mar, por torres de planta circular.
No seu interior identificámos solos de ocupação, de gesso e areia, buracos de poste de casas, fornos culinários, estruturas de combustão, lixeiras e um poço, assim como diversificado espólio, nomeadamente cerâmicas, datável entre os finais do século XVI e o século XVIII.

 

9.31 COLÓNIAS PARA HOMENS NOVOS: ARQUEOLOGIA DA COLONIZAÇÃO AGRÁRIA FASCISTA NO NOROESTE IBÉRICO
Xurxo Ayán Vila / José Mª. Señorán Martín

A partir de uma abordagem comparativa, propomos nesta nossa comunicação uma Arqueologia de algumas das colônias agrárias implantadas no noroeste da península bérica: Lamas (Paredes de Coura), o projeto de colonização dos terrenos baldios de Montalegre e Boticas (Barroso) e o Plan de Colonización de la Tierra Llana (Lugo, Galiza). Apesar de ser uma área que compartilha características comuns (mesmo clima, pequenos proprietários, marginalidade), as soluções adotadas geraram diferentes materialidades. A partir da Arqueologia do Passado Recente, recém desenvolvida em Portugal, levantamos questões teóricas e metodológicas para o estudo desse tipo de espaço doméstico contemporâneo. Esta pesquisa é realizada no âmbito do projeto de Archaeology of Contemporary Past and Heritage Socialization, financiado pela FCT (CEECIND / 04218/2017).