Arqueologia em Portugal: 2020 - Estado da Questão

6. Proto-História

 

6.1 PRODUÇÃO DE SAL MARINHO NA IDADE DO BRONZE DO NOROESTE PORTUGUÊS. ALGUNS DADOS PARA UMA REFLEXÃO
Ana M. S. Bettencourt / Sara Luz / Nuno Oliveira / Pedro P. Simões / Maria Isabel C. Alves / Emílio Abad-Vidal

Os primeiros indícios da produção de sal no litoral norte de Portugal são, normalmente, atribuídos à Idade do Ferro. Contudo há evidências de que esta atividade se desenvolveu na região, pelo menos, entre os finais do 3º, início do 2º milénios AC, tendo perdurando ao longo do 2º milénio AC.
Apresentam-se dados provenientes de dois sítios arqueológicos e procede-se à reavaliação de artefactos descontextualizados encontrados no litoral – as designadas pias amovíveis – e de estruturas escavadas na rocha, discutindo-se as suas técnicas de execução. O conjunto de dados foi articulado com as condições naturais e topográficas da costa e com as condições climáticas conhecidas para a época. Foram, igualmente, articulados com as estratégias de ocupação durante a Idade do Bronze.

 

6.2 A ESTÁTUA-MENIR DO PEDRÃO OU DE SÃO BARTOLOMEU DO MAR (ESPOSENDE, NOROESTE DE PORTUGAL) NO CONTEXTO ARQUEOLÓGICO DA FACHADA COSTEIRA DE ENTRE OS RIOS NEIVA E CÁVADO
Ana M. S. Bettencourt / Manuel Santos-Estévez / Pedro Pimenta Simões / Luís Gonçalves

A estátua-menir do Pedrão foi alvo de novos estudos em 2018 tendo-se verificado que teria cabeça, base arredondada e diversas gravuras, algumas destruídas pela ação antrópica. Tendo em conta a sua morfologia e a disposição das oito covinhas existentes na face sul que se unidas formariam o motivo retangular típico das estátuas-menires do Noroeste, esta deverá ser incluída neste grupo e na mesma cronologia genérica. A estátua-menir está deslocada, embora testemunhos e tradições populares indiciem que estaria perto do seu contexto original - na plataforma litoral em frente ao Monte de Sanfins. Terá funcionando como símbolo de identidade e de poder sinalizando um lugar geoestratégico de encontro entre populações, por motivos religiosos, sociais e de intercâmbio.

 

6.3 O CASTRO DO MURO (VANDOMA/BALTAR, PAREDES) – NOTAS PARA UMA BIOGRAFIA DE OCUPAÇÃO DA IDADE DO BRONZE À IDADE MÉDIA
Maria Antónia D. Silva / Ana M. S. Bettencourt / António Manuel S. P. Silva / Natália Félix

Com o presente trabalho pretende-se fazer uma atualização dos conhecimentos relativos à ocupação humana do “Castro do Muro” desde a Idade do Bronze à Idade Média.
Este local tem significativa tradição na literatura arqueológica pela presença de um imponente circuito muralhado, cuja largura oscila entre 3,5 a 4 metros, e com um perímetro de 3,927 metros, dentro do qual foi edificado um importante povoado que emerge durante a Idade do Bronze Final e se prolonga até à Idade do Ferro Antigo. No local ocorreram, ainda ocupação romana, um provável castelo roqueiro e um mosteiro medieval, como atestam os materiais cerâmicos, líticos e metálicos recolhidos em trabalhos arqueológicos e achados de superfície.

 

6.4 DO BRONZE FINAL À IDADE MÉDIA – CONTINUIDADES E HIATOS NA OCUPAÇÃO DE POVOADOS EM OLIVEIRA DE AZEMÉIS
João Tiago Tavares / Adriaan de Man

Até à elaboração da Carta de Património Arqueológico no âmbito do primeiro PDM, nunca tinha sido feita uma caracterização de conjunto dos povoados conhecidos no território.
Esta teve por base os poucos dados provenientes de escavação e as referências bibliográficas, sobretudo na imprensa local, à recolha de objetos nos diferentes sítios. Com esses dados disponíveis criou-se a imagem de uma ocupação longa e sincrónica em quase todos os povoados.
Com a elaboração do PIPA Povoamento em Oliveira de Azeméis (POVOAZ) avançou-se para a escavação de um conjunto de povoados procurando aumentar o conhecimento sobre os mesmos e verificar se a caraterização e cronologia de ocupação eram tão uniformes como se havia descrito na Carta de Património Arqueológico.

 

6.5 AS FAUNAS DO FINAL DA IDADE DO BRONZE NO SUL DE PORTUGAL: LEITURAS DESDE O OUTEIRO DO CIRCO (BEJA)
Nelson J. Almeida / Íris Dias / Cleia Detry / Eduardo Porfírio / Miguel Serra

Apresentam-se os resultados da análise dos restos faunísticos do povoado do Bronze Final do Outeiro do Circo (Beja), ainda inéditos, provenientes sobretudo da fossa/silo da sondagem 3 e das sondagens 7 e 8 localizadas junto ao talude defensivo. As práticas cinegéticas são acessórias neste conjunto com predomínio de restos de ovelhas e cabras, seguidas por gado bovino e suíno. Os padrões de abate, com a presença de indivíduos jovens e adultos sugerem uma economia mista, assente em recursos primários e secundários. O estudo permitiu valorizar um conjunto bastante fragmentado e afectado por processos pós-deposicionais, mas com indicadores de acção antrópica relacionáveis com o processamento das carcaças sob a forma de marcas de corte e termo-alteração por queima.

 

6.6 A ESPADA DO MONTE DAS OLIVEIRAS (SERPA) – UMA ARMA DO BRONZE PLENO DO SUDOESTE
Rui M.G. Monge Soares / Pedro Valério / Mariana Nabais / António M. Monge Soares

Nesta comunicação dá-se a conhecer uma espada, atribuível ao Bronze Pleno do Sudoeste, encontrada há vários anos em trabalhos agrícolas próximo da cidade de Serpa. A espada foi encontrada aparentemente descontextualizada, posteriormente limpa de produtos de corrosão e guardada pelo achador que, amavelmente, nos permitiu o seu estudo. A espada teria cerca de 50 cm de comprimento e o seu encabamento era efectuado por três rebites alojados em entalhes, dos quais se conservam dois. As cabeças destes têm a forma de calotes esféricas, encontrando-se cobertas por uma folha de ouro. A composição elementar do metal da lâmina da espada, bem como da folha de ouro que recobre as cabeças dos rebites, foi quantificada fazendo uso de um equipamento portátil de espectrometria de fluorescência de raios X. Foi assim possível determinar que a lâmina foi manufacturada com cobre arsenical, enquanto que a composição da folha de ouro indicia que a mesma corresponde a uma liga natural. Faz-se, por fim, uma comparação da espada do Monte das Oliveiras com os poucos exemplares deste tipo de arma conhecidos no sul ibérico, tomando também em consideração o tipo de encabamento que parece, até agora, uma variante única em espadas e que é relativamente raro em armas de forma similar, designadamente em punhais.

 

6.7 SÃO JULIÃO DA BRANCA (ALBERGARIA-A-VELHA) – INVESTIGAÇÃO E VALORIZAÇÃO DE UM POVOADO DO BRONZE FINAL
António Manuel S. P. Silva / Paulo A. P. Lemos / Sara Almeida e Silva / Edite Martins de Sá

O sítio arqueológico de São Julião é um povoado do Bronze Final, situado na plataforma litoral do Entre Douro e Vouga, que tem sido objeto de projetos de investigação sistemática desde 2014. As suas estruturas mais marcantes são a muralha pétrea que delimitava o recinto e um monumento megalítico, violado ou reutilizado em época moderna ou contemporânea. O espólio arqueológico integra um significativo conjunto cerâmico, objetos em pedra e metais, com destaque para um par de brincos em ouro, porventura relacionados com a evidência de metalurgia que se observa no local. Atualmente, está em curso um programa de conservação e valorização da estação arqueológica, com o apoio do Município.

 

6.8 DO CASTRO DE S. JOÃO AO MOSTEIRO DE SANTA CLARA: NOTÍCIA DE UMA INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA, EM VILA DO CONDE
Rui Pinheiro

Este artigo tem como objectivo dar a conhecer os dados obtidos com a escavação arqueológica realizada no interior da cerca do convento de Santa Clara, em Vila do Conde, designadamente num dos seus socalcos localizado a nascente do edifício conventual. Após as sondagens de diagnóstico realizadas numa primeira fase e com os dados aferidos, foi realizada a escavação integral da área acima referida.

 

6.9 CASTRO DE OVIL (ESPINHO), UM QUARTO DE SÉCULO DE INVESTIGAÇÃO – RESULTADOS E QUESTÕES EM ABERTO
Jorge Fernando Salvador / António Manuel S. P. Silva

O castro de Ovil é um pequeno povoado da Idade do Ferro situado no cordão litoral, entre os rios Douro e Vouga. Após diversas fases de trabalhos arqueológicos, entre 1981 e 2006, o seu estudo foi recentemente retomado. O castro possui um sistema defensivo incomum, estruturado apenas por um profundo fosso, parcialmente duplicado, e apresenta uma arquitetura exclusivamente indígena, composta por construções circulares, com e sem vestíbulo, nuclearizadas pela sua orientação para pátios comuns. Os estudos arqueológicos, complementados já por duas datações de radiocarbono, apontam para três horizontes de ocupação deste povoado: a fase IA (séculos IV-III a.C.), a fase IB (sécs. III-II a.C.) e fase II (sécs. II-I a.C., com eventual abandono nos começos do século I).

 

6.10 CASTRO DE SALREU (ESTARREJA), UM POVOADO PROTO-HISTÓRICO NO LITORAL DO ENTRE DOURO E VOUGA
Sara Almeida e Silva / António Manuel S. P. Silva / Paulo A. P. Lemos / Edite Martins de Sá

O Castro de Salreu, localizado no concelho de Estarreja (Aveiro, centro-norte de Portugal), é um dos povoados proto-históricos mais litorais do Entre Douro e Vouga, usufruindo de implantação privilegiada sobre um meandro do Antuã. O sítio tem vindo a ser alvo, nos últimos anos, de trabalhos arqueológicos que colocaram a descoberto estruturas em duas áreas principais, uma de cariz habitacional e, a outra, relacionada com a estrutura defensiva e delimitadora do espaço. As cinco campanhas realizadas permitiram a recolha de mais de 35000 fragmentos cerâmicos, alguns líticos, uma placa gravada, escassos metais e um conjunto de mais de duas dezenas de contas em pasta de vidro. Propõe-se que a sua ocupação tenha ocorrido entre os séculos IV/III a.C. e a mudança da Era.

 

6.11 CASTRO DE NOSSA SENHORA DAS NECESSIDADES (SERNANCELHE): UMA PRIMEIRA ANÁLISE ARTEFACTUAL
Telma Susana O. Ribeiro

O Castro de Nossa Senhora das Necessidades é, até à data, o único sítio arqueológico do concelho de Sernancelhe (distrito de Viseu) a ser discutido na bibliografia arqueológica. Referido como um castro do Bronze Final, o sítio tem vindo a ser destruído e conta apenas com recolhas superficiais que nunca foram estudadas de forma a dar a conhecer todas as suas ocupações. Assim, esta primeira análise, feita através de materiais cerâmicos, líticos e metálicos que resultam de prospecções ao cabeço, vem revelar outras cronologias para este sítio, procurando assim contribuir para a sua valorização e a compreensão da cultura material e povoamento da Beira Alta em alguns dos seus períodos pré-históricos e medievais.

 

6.12 A CIVIDADE DE BAGUNTE. O ESTADO ATUAL DA INVESTIGAÇÃO
Pedro Brochado de Almeida

A Cividade de Bagunte é a mais divulgada estação arqueológica do concelho de Vila do Conde. Localizada num monte com ótima visibilidade para os territórios situados a norte e a sul do rio Ave, mereceu, já na ponta final do século XIX, o interesse de arqueólogos como Ricardo Severo e Martins Sarmento e na década de 40 da centúria seguinte de F. Russel Cortez. Sobretudo este realizou, ali, algumas campanhas de escavações que puseram a descoberto um misto de construções castrejas e romanas, distribuídas por espaços ortogonais que têm já a chancela da influência romana na região. Os trabalhos arqueológicos mais recentes permitem uma maior precisão quanto à sua evolução, embora subsistam muitas interrogações por decifrar.

 

6.13 ZOOMORFOS NA CERÂMICA DA IDADE DO FERRO NO NW PENINSULAR: INVENTÁRIO, CRONOLOGIAS E SIGNIFICADO
Nuno Oliveira / Cristina Seoane

Nos estudos de cerâmica da Idade do Ferro no noroeste da Península Ibérica, destacam-se um determinado número de peças que apresentam decoração com motivos zoomórficos. Provavelmente sua relativa raridade neste período, onde predominam os motivos geométricos, se torne algo de especial interesse como instrumento social e ideológico para o estudo da sociedade.
O objetivo deste estudo foi o de realizar o primeiro inventário deste tipo de motivos associado ao seu contexto geográfico, à sua cronologia, funcionalidade, valor social e simbólico dessa representação na sociedade que a produziu. Após organização dos dados obtidos, esses elementos foram comparados com a decoração em metais e outros materiais.

 

6.14 VASOS GREGOS EM PORTUGAL: DIFERENTES MANEIRAS DE CONTAR A HISTÓRIA DO INTERCÂMBIO CULTURAL NA IDADE DO FERRO
Daniela Ferreira

Neste artigo procuramos dar a conhecer o conjunto de dados históricos e arqueológicos disponíveis para o estudo das cerâmicas gregas e das relações comerciais estabelecidas entre o Mediterrâneo Oriental e o atual território português, entre os séculos VII-IV a.C.

 

6.15 OS EXOTICA DA NECRÓPOLE DA IDADE DO FERRO DO OLIVAL DO SENHOR DOS MÁRTIRES (ALCÁCER DO SAL) NO SEU CONTEXTO REGIONAL
Francisco B. Gomes

Ao largo da sua longa existência (meados do século VII a meados do II a.n.e.), a necrópole da Idade do Ferro do Olival do Senhor dos Mártires (Alcácer do Sal) manteve uma estreita afinidade cultural com o Sul peninsular e o Mediterrâneo, expressa, entre muitos outros aspectos, pela presença de um conjunto de exotica (vidro, cornalina, amuletos de tipo egípcio e púnico, marfim/osso e ovo de avestruz) plausivelmente correspondentes a importações mediterrâneas ou de tipo mediterrâneo. Na presente contribuição analisa-se a posição destes elementos na sequência da necrópole, contextualizando-os no repertório de elementos importados durante a Idade do Ferro regional.