Arqueologia em Portugal: 2020 - Estado da Questão

1. Historiografia e Teoria

 

1.1 TERRITÓRIO, COMUNIDADE, MEMÓRIA E EMOÇÃO: A CONTRIBUIÇÃO DA HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA (ALGUMAS PRIMEIRAS E BREVES REFLEXÕES)
Ana Cristina Martins

Contribuindo para a composição de discursos escritos e iconográficos de índole identitária, a arqueologia tem desempenhado um papel, por vezes, determinante no desenvolvimento de comunidades locais. Capacidade que deveria ser aprofundada por ajudar a desconstruir mitos e a recuperar memórias, favorecendo, assim, a proximidade e o entrosamento entre território, cidadão, comunidade, produção de conhecimento científico e patrimonial e desenvolvimento sustentável de diferentes populações e geografias. Trata-se, porém, de um envolvimento que exige um esforço crescente e contínuo de cidadania, mormente por parte de quem, em contexto universitário e ciente das implicações da prática de uma exigente ‘ciência cidadã’, deve incentivar o gizamento e a concretização de projetos inovadores destinados a cumprir alguns dos ‘Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030’ e a própria ‘Agenda 2030’. Propomos, por conseguinte, debater, a partir de um caso concreto da região eborense, em que medida a própria história da arqueologia, enquanto disciplina universitária, pode – e deve, no nosso entender –, concorrer para a intersecção entre arqueologia, território, comunidade, memória e desenvolvimento local, ultrapassando o mero – porém, necessário –, domínio conceptual.

 

1.2 COMO DESCOLONIZAR A ARQUEOLOGIA PORTUGUESA?
Rui Gomes Coelho

Enquanto disciplina, a arqueologia é um produto da modernidade ocidental e de relações de colonialidade contemporâneas. Neste texto discuto brevemente a arqueologia no contexto da descolonização do saber e da sociedade. De seguida, exponho quatro problemas centrais com que devemos lidar, seguidos de propostas de discussão ou exemplos de experiências descolonizadoras. O projeto descolonial está longe de ser uma mera abstração. Pelo contrário, é uma oportunidade para imaginarmos um mundo com justiça social.

 

1.3 ARQUEOLOGIA E MODERNIDADE: UMA REVISITAÇÃO PESSOAL E BREVE DE ALGUNS ASPETOS DA OBRA HOMÓNIMA DE JULIAN THOMAS DE 2004
Vítor Oliveira Jorge

Em 2004, Julian Thomas (Universidade de Manchester), publicou uma obra importante: “Archaeology and Modernity”, na qual procurou mostrar que a arqueologia é uma ciência, uma disciplina e uma atividade que só poderiam ter surgido na nossa Modernidade, isto é, no período que se abriu com o século XVII europeu. Passados 16 anos, pode fazer-se um balanço e certamente propor alguns tópicos novos, ainda não abordados naquele livro, quer por opção do autor, quer pelo próprio desenvolvimento dos nossos conhecimentos. Esta comunicação pretende ser um pequeno contributo nesse sentido, muito embora assumindo um carácter pessoal e muito parcelar. Se em 2004 as conclusões e propostas finais do livro deviam ser discutidas, o tempo entretanto decorrido mudou obviamente o quadro das questões.

 

1.4 DADOS PARA A HISTÓRIA DAS MULHERES NA ARQUEOLOGIA PORTUGUESA, DOS FINAIS DO SÉCULO XIX AOS INÍCIOS DO SÉCULO XXI: NÚMEROS, NOMES E TABELAS
Filipa Dimas / Mariana Diniz

O presente artigo foca a presença das mulheres no meio arqueológico português, a partir de uma análise bibliométrica realizada a partir de duas revistas da especialidade – O Arqueólogo Português e Trabalhos de Antropologia e Etnologia – e da recolha, no Endovélico, de informação relativa à direcção, por mulheres, de escavações arqueológicas. Os resultados em ambas as revistas revelam uma presença minoritária de mulheres como expectável. Observa-se uma trajectória que se inicia abaixo do 1%, nas primeiras décadas do século XX, para atingir valores quase paritários na segunda década do século XXI. Também os dados do Endovélico demonstram o aparecimento e crescimento efectivo da presença de mulheres, na segunda metade do séc. XX, num percurso, por vezes mais abrupto que gradual, condicionado por um conjunto de factores políticos, sociais e ideológicos.

 

1.5 RETRACTOS DA ARQUEOLOGIA PORTUGUESA NA IMPRENSA: (IN)VISIBILIDADES NO FEMININO
Catarina Costeira / Elsa Luís

Partindo da presença da arqueologia portuguesa nos meios de comunicação social, com especial destaque para a imprensa escrita digital dos últimos dez anos, discute-se a visibilidade feminina dentro da profissão e como esta é transmitida para a sociedade.
Considerando as fontes citadas nas notícias de arqueologia como representativas da distribuição de mulheres em diferentes sectores da actividade arqueológica e os respectivos cargos que ocupam, é surpreendente a disparidade encontrada entre fontes masculinas e femininas, especialmente numa altura em que teremos atingido a paridade de género nos profissionais de arqueologia no activo. Esta maior invisibilidade feminina contribui para a manutenção de preconceitos de género e limita os exemplos que passamos para as novas gerações.

 

1.6 ARQUEOLOGIA E ARQUEÓLOGOS NO NORTE DE PORTUGAL
Jacinta Bugalhão

Este trabalho pretende apresentar os dados quantitativos sobre a Arqueologia no Norte de Portugal entre 1970 e início do século XX. São analisados o ensino da Arqueologia, os arqueólogos, as instituições com actividade em Arqueologia e a actividade arqueológica, procurando identificar convergências e divergências, relativamente ao todo nacional. São abordados os estabelecimentos de ensino superior da região e a sua oferta formativa. São apresentadas as distribuições por sexo, idade, habilitação, forma de exercício da actividade, tipo de vínculo laboral e enquadramento institucional dos arqueólogos naturais da região Norte. Sobre a actividade arqueológica são abordadas a categoria (investigação, valorização, preventiva e de emergência), tipologia e enquadramento institucional e também a Arqueologia urbana e a desenvolvida em meio subaquático ou húmido.

 

1.7 VIEIRA GUIMARÃES (1864-1939) E A ARQUEOLOGIA EM TOMAR: UMA ABORDAGEM SOBRE O TERRITÓRIO E AS GENTES
João Amendoeira Peixoto / Ana Cristina Martins

Nascido em Tomar em 1864, formado em medicina pela Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, José Vieira Guimarães falece em Lisboa em 1939. Durante a sua vida desempenhou várias ações para a valorização do património cultural da terra onde nasceu, participa em projetos arqueológicos e publicações, assim como, contacta com estudiosos como o arqueólogo José Leite de Vasconcelos.
José Vieira Guimarães envolve-se em associações e academias, é sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses, participa em escavações, investiga, publica artigos e livros, participa em congressos, firma a hipótese, de Seilium romana se situar em Tomar.
Apresentamos conteúdo inédito sobre a participação num congresso em 1923, assim como, consideramos que comete uma falha, em nossa opinião, a prova potencial do seu trabalho.

 

1.8 OS MEMORÁVEIS? A ARQUEOLOGIA ALGARVIA NA IMPRENSA NACIONAL E REGIONAL NA PRESENTE CENTÚRIA (2001-2019): CARACTERÍSTICAS, VISÕES DO(S) PASSADO(S) E A ARQUEOLOGIA ENQUANTO MARCA
Frederico Agosto / João Silva

O presente artigo ocupar-se-á da forma como os jornais – enquanto veículo de informação privilegiada com o grande público – apresentam o passado, a arqueologia e o arqueólogo. Para tal, proceder-se-á dialecticamente a um estudo comparativo entre a imprensa nacional e a imprensa regional, de forma a abarcar as diferentes realidades editoriais existentes e evidenciar os mecanismos de ambas aquando da escolha do que publicar. Por fim, e respeitando o questionário de base, far-se-á uma reflexão sobre os estereótipos relacionados com a arqueologia e a sua praxis, juntamente com a visão de passado que vinculam.

 

1.9 A EVOLUÇÃO DA ARQUEOLOGIA URBANA E A VALORIZAÇÃO PATRIMONIAL NO BARLAVENTO ALGARVIO: OS CASOS DE PORTIMÃO E SILVES
Artur Mateus / Diogo Varandas / Rafael Boavida

Com este artigo, pretende-se realizar uma breve síntese sobre o panorama e evolução da arqueologia urbana nos concelhos de Portimão e Silves. O objetivo principal será entender a evolução da identificação, valorização e divulgação dos sítios arqueológicos gerados por esta prática, e a forma como se enquadram no quotidiano das cidades abordadas neste estudo. Deste modo, recorreu-se à base de dados do “Portal do Arqueólogo”, Planos Diretores Municipais (PDM), documentos de divulgação patrimonial regionais e nacionais e a notícias municipais e nacionais. A necessidade de uma arqueologia urbana tornou-se fundamental e imperativa no final do século passado, devido à sua relevância na reconstrução identitária e histórica dos respetivos concelhos. Igualmente, analisar-se-á o impacto dos trabalhos urbanos no desenvolvimento turístico-cultural local.